MÃOS À FORCA

1.

O cara vai lá, desce da árvore, passa por guerras e pestes; Desbrava, coloniza, cria avião, vacina e internet, mas no início do dia, está recém atravessado na minha frente, convicto que malandragem mesmo é furar a fila do quiosque de pãozinho de queijo na rodoviária. Não tem jeito certo de pedir pra alguém sair dessa posição. Você vai invariavelmente ser um filho da puta. Conheço bem esse tipo: Se eu reclamar, ou ele vai fingir que não me ouviu, ou vai virar e rebater com agressividade, até eu me sentir miseravelmente culpada, como se fosse eu quem estivesse tentando tirar vantagem o tempo todo. Conto três pessoas na minha frente, incluindo o cara. Conto também dois pãezinhos de queijo no expositor do balcão.

Penso em uma velhinha que esbarrou em mim e deixou algumas moedas cairem da minha mão direto no piso, isso na semana passada. Enquanto eu me abaixava para recuperá-las, ela agradeceu a minha gentileza em ajudar e estendeu a mão afim de pegar os seus níqueis de volta. Que tipo de pessoa seria eu em discordar de uma senhora com catarata e bengala, talvez meio surda? Ela levou minhas moedas. Essas coisas funcionam na mesma lógica de tomar um murro na cara e ouvir, segundos depois, que você sabe o porquê de ter apanhado. Antes de revidar, ficar fulo ou sentir a cara latejando, você vai pensar se realmente não merecia aquilo. Todo sujeito tem um bom motivo pra tomar uma sova, afinal. Lá se foi mais um pão de queijo. Talvez eu mereça isso também. São duas pessoas na minha frente que precisam fazer qualquer outro tipo de pedido.

Esse cara, o da minha frente, ele deve ser paulistano. Veste paletó, tem uma pastinha embaixo do braço, um tique nervoso de coçar a nuca perfeitamente aparada com suas unhas ainda mais perfeitamente aparadas. Olhando daqui, arrisco a dizer que ele usa base um tom abaixo da cor natural da sua pele. Usa base e precisa pegar um ônibus para trabalhar: Coisa de paulistano, entende? São Paulo impera uma xenofobia às avessas. Acho que ninguém nasce aqui mesmo, mas vem pra cá em algum momento. Li em algum canto que chegam vinte e seis pessoas pra morar nesse lugar por hora, então quando você se depara com um sujeito assim engomadinho, mal educado e estressado, você diz que ele é cria daqui, que não pertence a esses vinte e seis. Não que não sejamos menos caricatos e trágicos, como a mulher que acaba de sair da fila segurando uma coxinha em uma mão e uma Coca-Cola na outra. Usa tanta maquiagem que se ela espirrasse, é certo que o rosto trincaria da testa até o queixo. Mesmo eu carrego dois sapatos na bolsa: Um para subir as ladeiras da cidade, outro, de salto, para andar no plano. Eis a prova incontestável de que eu não sou adaptável ao relevo.

Agora é só ele e eu na fila. Consigo ouvir o som abafado vindo da sua nuca, pedindo por um café e o último pão de queijo. Nessas horas, a sociedade tem que agradecer a não-legalização das armas. O cara sai apressado para o terminal e eu fico com o resto do cheiro do pãozinho no ar, que está agora em um saco branco e transparente pela gordura da mantega usada para untar a forma. Peço o mais frustrante café com leite e pacotinho de bolacha, caminho até o ônibus. Por sorte, consigo um lugar sentada e segundos depois, um senhor senta ao meu lado, mesmo com outros lugares vagos. Entendo essas coisas como um sinal de que eu tenho aparência receptiva. Dou umas goladas no meu café com sorriso interno da vitória. Até que o dia não está de todo perdido.

Começo a ler e me sinto enjoada, não pela leitura mas sim pelo cheiro repentino do ainda pão de queijo. Devo estar alucinando, não é possível. Não, não estou. Olho para cima e ali está o cara da fila, de pé no corredor. Cara, que coisa nojenta e constrangedora é deixar essa pastinha socada entre as suas pernas, perto da virilha, pra conseguir se equilibrar nas cordinhas do ônibus. Imagino se a pasta não tem algum tipo de marca mais escura em v. Pior do que essa visão é notar que ele nem comeu a porra do pão de queijo, que está agora pendurado junto com a sua mão.

Queria mesmo entender em que momento da história, entre o descer da árvore e o furar a fila, o ser humano achou que seria uma boa ideia colocar essas cordinhas amarradas nos canos dos ônibus. Olhando de cima, parece que todas as mãos vão à forca, balançando já meio mortas. Não completamente enforcadas, porque se assim fosse, o pão de queijo rolaria pelo veículo e eu poderia encontrá-lo em um cantinho, embaixo de algum assento. Daria uma sopradinha e comeria sem culpa.

Desço no ponto 900 da Avenida Paulista.

2.

Glaucia Nogueira faz cartões de desconto com anuidade na loja de livros em frente ao ponto. Essa lógica é no mínimo duvidosa, um “pague aqui para pagar menos”. Meus olhos fixos em seu crachá enquanto ela pergunta nome, sobrenome, RG, CPF, data de nascimento, endereço, nome da mãe, signo, ascendente, praia ou montanha e se o homem pisou mesmo na Lua ou foi conspiração. Como você se aguenta, Glaucia? Glaucia, pra quê isso?

Por que você está fazendo isso comigo?

Captura de Tela 2013-10-18 às 12.44.01 PM
lustração: Ana Mohallem

Autor: Dindi Coelho

Radialista, ativista na luta para salvar alpacas, The Pie Maker, crítica de críticos de cinema, Mestra e Soberana do céu, inferno, Vida, Universo e tudo mais.

Uma consideração sobre “MÃOS À FORCA”

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