Magoados são todos os copos de plástico

Magoados são todos os copos de plástico que
guardam cheiros, essências e pontuam
sua sólida displicência em beber
num mesmo recipiente sopa, leite, suco
fazendo a água descer densa como a ausência
fazendo todas as manhãs carregarem o gosto vencido
dos assuntos que não se reciclam
É de se esperar que quem beba sopa, leite, suco
num mesmo copo de plástico também pense que
tudo pode ser sobreposto à vontade
e que a expectativa de vida é sempre menor
do que expectativa em si mesmo
Goladas grandes para quem ainda se importa
um pouco com o gosto mas não está disposto a rever
Lavadas sem detergente para quem quer tirar
os resquícios sem de todo esquecer
Já os copos de cerâmica feitos pelas mãos de Tokai
carregam a vida toda o aconchego
que há em um forno de Noborigama construído
com apego, café e devaneio no topo da serra
aquilo que se bebe é leve
aquilo que se conta se vai
Não há pressa em um copo de cerâmica
desde que haja a pontualidade do chá
e a promessa de que aqui sejamos pessoas
mais tranquilas e que a qualidade de vida
seja maior do que a qualidade
do piso de taco do apartamento em São Paulo
Que venha tudo isso
Seja suco na taça de cristal
ou cachaça na madeira
ainda que tragam uma garrafa de vinho com
a rolha enfiada no meio do líquido
que seja tudo isso
só não me faça ter que beber a vida
pela burocracia que há em um canudinho

Penso

Penso no conforto que há no morno café preto matinal daquele que acorda sem nenhum tipo de medo ou remorso. Com o corpo todo mole, a pessoa sem receios -e sem roupas- se arrasta até a cozinha, coloca a água para ferver com a mente tranquila de mais um dia. Penso em quantas vezes eu mereci apanhar na cara, bem no meio da fuça, e cair de quatro no asfalto, ter caminhos de sangue seco desbravados nas pernas, e o choro engolido a contragosto. Penso no mundo como uma cínica galinha do rabo de espanador que passa por pavão, dizendo assim: calma parça, que não há conta que não se paga e a sua está bem aqui. Penso que se tudo pudesse ser pago na cusparada e no tapa até que tava bom. Penso no desgosto das casas que deixam as televisões ligadas, ecoando as notícias de um carro encontrado na vala do rio com todos mortos usando cintos de segurança. Notícias assim deixam qualquer café acinzentar. Penso. Eu sou uma boa pessoa na maioria das vezes.

Terminal Barra Funda

TERMINAL BARRA FUNDA

Estava distraído a ponto de cair
no vão entre o trem e a plataforma
descobri que se vive bem
com tudo que é deixado

Adestro ratos para saquear vagões e
trazer salgadinhos frescos
com sorte algum Trident ou
biscoito de polvilho
Se encontramos
guardamos para ceia do Natal

Construo fortunas com moedas
de pelo menos 12 países
Negocio com outros esquecidos
do metrô do Mercosul

As obras de expansão seguem lentas
não é novidade mas sonhamos
com o grande dia em que seremos
maiores

Teremos representantes nas Olimpíadas
Já treinamos diariamente
salto com palito
Levantamento de chocolate
crawl na poça d’água
hipismo de barata
Um dia seremos maiores
do que foi a nossa queda

vírgulas quebram números

espaços quebram palavras
versos quebram
poemas
com linhas quebro parágrafos
e com páginas quebro livros
livros existem para quebrar
tudo quebra

O tempo quebra
analógicas estações, luas, signos, e atrasos
Quebram as relações, os ossos
o nariz da estátua, a cara
As refeições, as conversas
o coração dos apaixonados
quebra mesmo

A água quebra
garrafas, copos, gelos, goles e vapor
O mar quebra
quebra a porcelana do dente e da avó
a expectativa,
a rotina pede uma quebra
quebra essa

Uma foto é uma quebra
lembrança também
o copo da pia quebra
quebram-se os conjuntos como
quebram-se as nozes no fim do ano
a conta bancária quebra, esquinas quebram
consoantes quebram a lingua

mas sempre que algo quebra
abre

Prédio

duas luzes vermelhas piscam no alto de duas antenas no alto de dois prédios
a luz de número um pisca a cada seis segundos e meio
a luz de número dois pisca a cada quatro segundos e meio
e apagam e acendem fazendo sombras na sua cara concentrada
enquanto você faz contas repetindo os dedos

em cinquenta e oito segundos e meio as duas luzes vão piscar
por um segundo ao mesmo tempo, pela mesma duração
com a mesma cor, mesmo brilho, mesma intensidade
uma grande união testemunhada por você e ignorada pela cidade
mas contra todas as provas de matemática

não é esse o segundo que você festeja
e sim o quase minuto que passou e que segue

de busca intercalada

Nos dias de nuvem

seguro meu próprio polegar para atravessar a rua
apagar a luz, falar ao telefone, pedir pizza
afundo as mãos no saco de pipoca
para que sinta elas
emborracharem

abotoo três quatro vezes a mesma camisa
erro botões como erro estações
brigadeiro faria lima qual era o outro
sei que tem mais um na próxima linha
mas é diferente

a atenção fica em manchas da mesa
excelência de pratos perfumados
gavetas ordenadas com precisão
com dias agendados

como que se em cada ralo
ou cada saco
pudesse eu mesma me levar embora
e ainda tomar nota

Bloqueados

veja bem meu amor
louca mesmo é
a vida

ja me esquecia
que no twitter te seguia
cabeça essa a minha

você tentou me readicionar

agora recordo e devo
sem demoras
te bloquear

e digo também
meu emprego vai bem
não se preocupe
confie

não há atualização pra ver
não há motivos pra ler
todos os dias o meu
linkedin

Daqui a pouco

Sou o imediato depois do que não foi. Você apostou alto, bancou tudo, insistiu muito, floreou tanto que não deu.

Antecedo o que será aquilo que você sempre quis, o que você sempre precisou, o aconchego que você só não buscou antes só por desconhecer.

Antes não interessa mais agora que depois chegou. Eu não pertenço às histórias que um dia você vai contar.

Notegraphando

Notegraphy é um aplicativo simpático que dá todo um tchãnz visual-hipster-estético no seus textos. Agora vou colocar todas as minhas frases de efeito nele. Mwahahah.

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Bem também

Me perguntaram se tudo bem. Tudo bem sem saber o que é o tudo e o que é o bem.

O meu tudo deve ser nada pro João Gilberto. Deve ser árvore pro Arnaldo Antunes, sexo pro Serguey, pedra pro Drummond e a nova Barbie para minha prima de 8 anos. É ainda everything pro gringo sem dicionário, perdido em um taxi de Copacabana. Certo que tudo é o que o taxista quer tirar do gringo perdido sem dicionário dentro do seu taxi em Copacabana.

O meu tudo talvez não funcione em Saturno. Se eu der tudo pra uma girafa, ela não vai saber mastigar. Se eu der tudo prum avestruz, ele vai tentar roubar de mim. Eu não sei se eu quero dar tudo prum avestruz ou botar tudo a perder.

As coisas andam estranhas desde que eu sonhei ter sido abduzida por um ET que estava no pé da minha cama. Ele era o único a saber o que era tudo pra mim. Sabendo, pode ter levado embora. Pode ter implantado um chip da zica. Ou ainda implantado dois polos negativos: um no tudo e outro no bem.

O meu bem também é
Não sei se um estado. Não é um momento, muito menos uma pessoa ou algo tateável.

Olhando de cima, o bem não faz diferença. Não existe bem, sorte, certo, Deus, pena ou final: existe o que te interessa. Bem foi o que eu vi uma vez atrás do pote de geleia. Foi você em uma quarta-feira no cinema.

Me perguntaram se tudo bem. Eu disse sim, e você?

Bolso furado

Sonhei que tinha perdido a carteira
E nessas perdi o sono
De tanto espaço no quarto 
me perdi em pensamento
até perder a hora

Perco a calma ao perceber
Que vivo mesmo perdido nos caminhos
Queria que isso desse jeito
Que fosse esse o objetivo
Mas mesmo perdido se chega

E é sempre chegando que perco a vontade
Vontade que me faz perder a noção
Que bem faz em não se ter

Embora já tenha perdido o prazo da conversa
me ajuda aqui a não perder essa minha única convicção

Seja lá o que for,
seja lá onde a gente for,
não tem como dar perdido no destino
E o destino de tudo é se perder

Cabras montanhesas: Um amor, uma admiração, um estilo de vida.

Cabras montanhesas têm sido um pensamento recorrente na minha vida. Parece que todos os meus neurônios, em suas complexas conexões teísticas e emaranhadas, sempre encontram, de alguma forma química-psicologica ainda não exatamente mapeada, uma maneira inusitada de relacionar qualquer assunto à esses animais de adoráveis chifres em forma de concha e pêlos felpudinhos esbranquiçados.

Há 4 anos atrás, tive que participar de uma palestra motivacional em um pensionato de freiras (vivendo radicalmente, pois é). Todo mundo tinha que dizer que animal queria ser e porque. Eu disse que queria ser uma alpaca porque elas eram simpáticas e quentinhas. Não confundam lhamas com alpacas. Lhamas cospem na sua cara enquanto alpacas sorriem. No mais, sou o tipo de pessoa que valoriza o quentinho. Naquela época, eu não conhecia as cabras montanhesas. Hoje sei como elas deveriam ser as rainhas da fauna e as alpacas as princesas.

Alpacas e cabras vivem bem em ambientes montanhosos -As cabras montanhesas em ambientes mais montanhosos-. Elas se equilibram em 3 patas. Elas podem ser domesticadas. Elas podem atacar com cabeçadas. Elas chegam em qualquer lugar. Acho até que seria uma boa se usassem cabras montanhesas para serviço em corpo de bombeiros, assim como os Pastores Alemães são usados pelo exército e polícia, e os São Bernardos para salvamentos.

E você -sim, você ai mesmo, leitor- que para mim é como o inverno, não exatamente ele, mas sim como o último centímetro cúbico de uma flor rodeada por grama no topo de uma montanha antes que a geada chegue, antes que os ursos hibernem, que as aves voem todas para o sul e que toda rara vegetação vire um mundo de neve. Você que é essa coisa rara, especial, escolhida pela trolagem do acaso para estar sozinho ai no topo, delicado mas inatingível…

Eu só chegaria até você se eu fosse uma cabra montanhesa.

Edition of 1000 Printed:

Escritores, roteiristas, artistas… que a gente consiga um dia essa mutação pela nossa arte. Trololololo.

É aquilo que eu tive ao encontrar um mousse de maracujá no canto da geladeira com a data de fabricação de 24 de junho de sabe-se lá qual ano. Sem vencimento. E eu vi passarem as Olimpíadas, mudei de emprego, fiquei presa do lado de dentro de um banheiro no meio de uma festa, perdi a chave de casa 43 vezes, briguei com um taxista, ganhei um bonsai, matei o bonsai por falta de água, namorei duas vezes, comprei uma bicicleta e comi o mousse. Fé é o que eu tenho naquilo que não consigo ver. Tenho fé em metáforas e conservantes.

Nota de vida.

Foi encontrado um corpo na manhã desta quinta-feira, 27 de setembro de 2012, por volta das 06h00 da manhã. Supostamente mulher, 22 anos, estava acordada, saudável e de bem com a vida. Há suspeitas de que o acontecimento tenha se dado por causas naturais e cerca de duas horas e meia antes do despertador tocar.
Questionado, corpo declarou que lamenta profundamente o ocorrido.

 

Fatalidade (II)

Dos muitos mundos que a gente não pode ver, dos tempos que se passaram e passarão, em algum lugar oposto a isso aqui, existe uma outra eu que se dedica somente a deixar bagunças e easter eggs bizarros pra eu resolver nessa vida. E em algum outro universo paralelo, existe mais uma eu rindo de tudo isso com um óculos 3D.

Fatalidade (I)

Estou sem voz há três dias. Acordei e estava muda sem nenhuma razão aparente. Temo que fique assim permanentemente. Talvez almeje por isso. Ou essa seja minha chance  de virar prodígio.

Pretendo lançar meus romances engavetados usando o mistério para me promover.

Nos jornais: “Autora que não tinha voz deu ao mundo o que falar”