Penso

Penso no conforto que há no morno café preto matinal daquele que acorda sem nenhum tipo de medo ou remorso. Com o corpo todo mole, a pessoa sem receios -e sem roupas- se arrasta até a cozinha, coloca a água para ferver com a mente tranquila de mais um dia. Penso em quantas vezes eu mereci apanhar na cara, bem no meio da fuça, e cair de quatro no asfalto, ter caminhos de sangue seco desbravados nas pernas, e o choro engolido a contragosto. Penso no mundo como uma cínica galinha do rabo de espanador que passa por pavão, dizendo assim: calma parça, que não há conta que não se paga e a sua está bem aqui. Penso que se tudo pudesse ser pago na cusparada e no tapa até que tava bom. Penso no desgosto das casas que deixam as televisões ligadas, ecoando as notícias de um carro encontrado na vala do rio com todos mortos usando cintos de segurança. Notícias assim deixam qualquer café acinzentar. Penso. Eu sou uma boa pessoa na maioria das vezes.

É aquilo que eu tive ao encontrar um mousse de maracujá no canto da geladeira com a data de fabricação de 24 de junho de sabe-se lá qual ano. Sem vencimento. E eu vi passarem as Olimpíadas, mudei de emprego, fiquei presa do lado de dentro de um banheiro no meio de uma festa, perdi a chave de casa 43 vezes, briguei com um taxista, ganhei um bonsai, matei o bonsai por falta de água, namorei duas vezes, comprei uma bicicleta e comi o mousse. Fé é o que eu tenho naquilo que não consigo ver. Tenho fé em metáforas e conservantes.